O envolvimento dos rins é comum no lúpus eritematoso sistémico (LES) e é observado em 40-70% dos doentes. Destes doentes, 20-30% evoluem para insuficiência renal terminal (ESRD), necessitando de terapia de substituição renal (RRT) nos 10 anos seguintes ao diagnóstico de lúpus. Estudos anteriores relataram uma diminuição da atividade clínica e sérica no LES após o início da diálise, um fenómeno conhecido como “burnout”. O mecanismo é desconhecido e pode estar relacionado com a uremia e/ou a disfunção imunitária induzida pela diálise, enquanto que, por outro lado, existem hipóteses de que o fenómeno de “burnout” possa representar o curso natural da doença. Curiosamente, evidências recentes sugerem que a “recaída” do LES é de facto comum na ESRD, especialmente no primeiro ano de TSR. Séries de casos relataram recaídas em >50% dos pacientes com ESRD com LES. No entanto, a informação atual sobre crises de lúpus após a diálise é escassa e controversa, pelo que um estudo realizado pela Professora Ana Barrera-Vargas et al do Departamento de Reumatologia da Cidade do México teve como objetivo identificar factores de risco para crises de LES em doentes com ESRD que entram em TRS, e o artigo foi publicado numa edição recente da Rheumatology. Os investigadores realizaram um estudo retrospetivo de caso-controlo num hospital de cuidados terciários na Cidade do México, de 1993 a 2014. Os casos incluídos foram pacientes com lúpus eritematoso sistémico (LES) que tiveram crises de lúpus extra-renal depois de entrarem em TSR. Os controlos eram doentes com LES que entraram em ESRD mas não tiveram crises de lúpus extra-renal. As características demográficas, os indicadores clínicos e os marcadores imunológicos foram registados em ambos os grupos. Foi incluído um total de 88 doentes no estudo, incluindo 38 doentes com casos (que tiveram 50 crises extrarrenais) e 50 doentes de controlo. Verificou-se uma maior proporção de homens nos casos de doentes do que nos doentes de controlo (24% versus 8%). As manifestações de recidiva extrarrenal mais comuns foram as hematológicas (42%), seguidas das manifestações cutâneas das mucosas (38%), das manifestações articulares (30%), da inflamação da membrana plasmática (16%), da pericardite do miocárdio (12%), da febre (12%), da hemorragia alveolar difusa (6%) e da vasculite cutânea (2%). Os factores de risco independentes para a recaída incluíram a idade no início da TSR, história prévia de atividade hematológica, anticorpos anticardiolipina IgM positivos e níveis baixos de C4. Com base nestes resultados, os investigadores concluíram que os doentes com LES permanecem em risco de atividade extrarrenal depois de iniciarem a TSR. A manifestação mais comum de recaída extrarrenal foi a hematológica, que foi associada a uma história prévia de doença hematológica ativa e à positividade para anticorpos anticardiolipina como factores de risco independentes. Níveis mais baixos de C4 e idade mais jovem no início da TSR estão igualmente associados ao risco de atividade extrarrenal em doentes com LES. Os doentes com estas características devem ser seguidos mais de perto, de modo a detetar e tratar atempadamente as crises de LES.